skip to Main Content
Escritório Vale Do Dendê é Lançado Em Evento Com Autoridades E Makers

Escritório Vale do Dendê é lançado em evento com autoridades e makers

Com o lançamento do projeto do escritório colaborativo Vale do Dendê, realizado dias 29 e 30 de novembro, no Hotel São Salvador, a capital baiana passará a disputar, em pouco tempo, um lugar entre as principais rotas brasileiras de inovação, economia colaborativa, criativa e circular. A iniciativa chega para empurrar a cidade para o futuro e pretende desenvolver um novo ambiente de negócios, apoiado no talento e na criatividade, tão característicos do povo baiano.

Mas, são tantos os desafios desta empreitada, que os donos da ideia decidiram compartilhá-la com um seleto grupo, reunindo em um único evento representantes do governo, iniciativa privada, empreendedores, jornalistas e parceiros para a apresentação da proposta. A ousadia e o entusiasmo uniram em sociedade o publicitário Paulo Rogério Nunes, o jornalista Rosenildo Ferreira e o administrador e professor Hélio Santos. Mesmo sabendo dos embates iniciais, os três se apoiaram no espírito empreendedor e querem transformar a realidade de uma cidade que tem tanto potencial criativo, quanto desigualdades sociais.

Apesar da vocação turística incontestável, Salvador tem um dos piores IDHM do país (Indíce de Desenvolvimento Humano Municipal), figurando na posição de número 383, entre os 5.565 municípios brasileiros, de acordo com o Ranking do Atlas do Desenvolvimento Humano (PNUD 2013), o que significa dados nada satisfatórios quando o assunto é escolaridade, renda e nível de saúde da população. Além disso, a cidade também está bem longe da rota dos melhores lugares para se fazer negócio no Brasil. Outro dado fundamental está no racismo estrutural (institucional), que atinge 82% da população negra da cidade.

Mas se engana quem pensa que os criadores do Vale do Dendê, um nome sugestivo que remete à cultura do dendezeiro tão importante para a economia região, estão remando contra a maré. Pelo contrário, a ideia é mostrar que, assim como em muitos países e até em cidades brasileiras a colaboração, o compartilhamento, o financiamento coletivo, o empreendedorismo e, lógico, a criatividade estão transformando a realidade de muitas comunidades. Foi o que aconteceu em Medelín (Colômbia) onde está o Ruta N, um projeto de inovação com base social, que transformou a cidade mais violenta do mundo, na mais inovadora no âmbito global. O mesmo aconteceu com Nairobi (Quênia), Kigali (Ruanda) e também no Brasil, em Recife, onde funciona o Porto Digital. Sem contar, o Vale do Silício (Califórnia), conhecido por ser o maior polo industrial de inovação do planeta.

A ordem, com o Vale do Dendê, é derrubar as adversidades e impor um novo ambiente de negócio na capital baiana.

Preparando a cidade de Salvador para o futuro

O primeiro passo, para o sucesso da empreitada, será buscar melhores oportunidades nos potenciais existentes como atrativos naturais, culturais e turísticos. Na abertura do seminário, por um vídeo, o professor Hélio Santos, que não esteve no evento, provocou os participantes a pensarem em uma nova cidade aliás, na “mais nova capital da inovação”.

Ao falar sobre o tema “Desafios da Geração de Oportunidades em Salvador”, ele disse que o talento e a criatividade do povo baiano devem ser aproveitados como caminho de negócios. “A cidade de Salvador é uma exportadora de talentos. O desenvolvimento de um Estado está lincado à existência de oportunidades, sem isso haverá menos chances de desenvolvimento. O momento é agora, temos que sair da informalidade e partirmos para a economia criativa, esta que une conhecimento e conectividade”, ressaltou.

“Nós temos que valorizar a diversidade, mais do que respeitá-la. Quando não se valoriza os talentos você tem perdas. Precisamos capacitar a partir da vocação, não desperdiçar talentos e estabelecer um novo padrão de excelência, buscando os talentos onde eles estiverem. Ter a  equidade como verdade no cotidiano e a igualdade de oportunidade. Nada é mais desigual do que tratar todos igualmente”, provocou.

Paulo Rogério Nunes, um conhecido afro-empreendedor, que esteve à frente de negócios como a criação do Instituto Mídia Étnica, Correio Nagô e recentemente do escritório colaborativo UJAMAA (cowoking), tem a tarefa de ser o articulador de parcerias para a organização e mostrou que tem motivos de sobra para acreditar na nova iniciativa. “Nós estamos em uma cidade icônica para a diáspora africana. Aqui respiramos economia criativa e inovação social”, disse ele.

Rosenildo Ferreira, que foi eleito pela terceira vez um dos Jornalistas Mais Admirados do Brasil ( Jornalistas & Cia e Max Press), disse que o trabalho começa com a certeza de que muita coisa já está sendo feita e portanto “não vão inventar a roda, mas sim trabalharão como parceiros, valorizando o que já existe”. “Queremos que Salvador seja percebido como um ambiente de inovação. Ainda temos muita gente falando sobre Salvador, mas pouca gente investindo aqui. Vamos fazer a interlocução com os grandes centros, principalmente entre São Paulo/Rio e Salvador”, disse Ferreira, que também é um dos fundadores do Portal de notícias 1Papo Reto e um incentivador do conceito do black-money. “Estou liderando um grupo de afroempreededores para criação de um Fundo de Investimento destinado a apostar em jovens investidores que usam as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) para mudar a realidade na qual eles vivem”, anunciou.

A sinergia certa: governo, iniciativa privada e universidades

No primeiro dia do Seminário, os participantes foram convidados para a uma dinâmica de validação e análise da proposta do Vale do Dendê. Com apoio das administradoras da SER, consultoria de serviços sociais e ambientais, as pessoas foram divididas em grupos e receberam questões importantes para esta fase de estruturação dos processos da organização.

Os pontos mais importantes foram: como identificar e se aproximar das experiências inovadoras em Salvador; como encarar os principais desafios; quais as oportunidades que já existem; como definir as áreas prioritárias e qual o melhor modelo de governança.

De acordo com Camila Godinho, Administradora de Inovação Social da SER, este tipo de atividade traz novos horizontes para projetos, pois podem inovar ou resolver problemas de forma diferenciada. “Nós trabalhamos com produtores e incubadoras de iniciativas de inovação social e sustentabilidade. Algumas atividades como essas são capazes de até mesmo criar algo novo”.

O que mais chamou a atenção foi o nível dos participantes que foram atraídos para o evento. Foi formada uma rede de sinergia para provar que o projeto é possível com os  representantes da Fundação Alphaville; Fundo Baobá; Fundação Ford; Fapesb – Fundação de Amparo ao Pesquisador do Estado da Bahia; Instituto Federal da Bahia; Instituto PDR; Cubos Tecnologia; Laboratório de Empoderamento Criativo; Global Shapers Community; UFBA – Universidade Federal da Bahia; UNEB – Universidade do Estado da Bahia; UFRB – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; RTVE- Rede de Rádio e Televisão Educativa; Secretaria de Trabalho e Emprego do Estado da Bahia; Katuka Mercado Negro e Katuka Africanidades; Instituto Mídia Étnica; Desabafo Social e DressCoração.

Adriana Campelo, Diretora Geral de Trabalho e Qualificação Profissional da Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Emprego da Prefeitura, disse que o momento é de avançar, a partir de iniciativas como estas. “Precisamos lançar um edital para definir os eixos, pois já sabemos que a economia criativa se tornou uma prioridade. O Vale do Dende é um interlocutor qualificado que responde a esta demanda”, disse.

Selma Moreira, representante da Fundo Baobá, confirmou a parceria com o Vale do Dendê e justificou a aposta. “É uma iniciativa de fundamental importância para Salvador. Vemos aqui uma plataforma com potencial gigantesco para inclusão econômica para esta população e já estamos estudando as melhores formas de contribuir para o sucesso deste novo projeto”. O Fundo Baobá é uma organização sem fins lucrativos e tem como meta mobilizar pessoas e recursos para apoiar projetos em prol da equidade racial.

O secretário de Estado da Cultura, Jorge Portugal, também esteve presente e reforçou que projetos como estes vão de encontro ao que já é tendência na gestão pública atual, traduzida em programas e editais.

Ao final da dinâmica ficou a certeza de que criatividade e o pensar coletivo vão gerar oportunidades de crescimento para diversos tipos de negócio. A iniciativa já nasce bem avaliada e direcionada para atuar com o principal diferencial da cidade de Salvador, que é o “capital humano”. Assim como havia apontado o professor Hélio Santos. “Temos que saber  que pessoas são fundamentais e é necessário o apoio local, governo, prefeitura, articuladores sociais, parceiros certos para produzir sinergia”.

Mas os participantes não poderiam encerrar o primeiro dia de atividades sem antes conhecer a Katuka Africanidades, localizada no Centro Histórico de Salvador, uma loja com um conceito moderno, que une moda, arte, literatura e abre espaço para as mais inusitadas experiências culturais na cidade. Ao recepcionar os convidados do seminário, com um típico coquetel, o paulista Renato Carneiro, 46 anos, sócio-proprietário e diretor de estilo da marca, dividiu suas experiências e falou dos acertos ao escolher a cidade de Salvador para o negócio próprio. “A Katuka nasceu com o Mercado Negro, que é a nossa primeira loja, que vende artigos religiosos, depois criamos este espaço. Desde o início tudo foi feito com muito respeito e admiração pela cultura local e com muita vontade de nos integrar. Aproveitamos a potencialidade das pessoas que trabalham, com o conhecimento de cada um e transformamos isso tudo nesta constante experiência”, disse ele.

Mentes criativas: da moda étnica ao brigadeiro de dendê

Conhecer os casos de sucesso e tomar contato com o ambiente inovador e criativo que já pulsa na cidade de Salvador. Este foi o objetivo da programação reservada pelos organizadores para o segundo dia do encontro. O espaço foi aberto para que afroempreededores pudessem contar suas experiências e discutir novos caminhos para seus modelos de negócios, na Casa do Mídia Étnica, um local de compartilhamento de ideias e inovação, localizado próximo ao Largo 2 de Julho (Centro), aonde funciona o coworking UJAMAA, o projeto VOJO e a redação do Correio Nagô.

As apresentações foram feitas por Yan Ragede, da Afrobox, que propõe um espaço compartilhado para divulgação e comércio de marcas locais em shoppings da cidade; a influenciadora digital, Luma Nascimento da DressCoração, grife de moda étnica, com conceito de pertencimento da identidade negra, que atualmente trabalha novos projetos como o Bráfica, para discutir novas narrativas de imagem e propostas de pontos de cultura na cidade como o Rolezinho Cultural, que tem a participação de Monique Evelle, que também participou do evento, criadora da Desabafo Social, uma organização que propõe a transformação social a partir da educação e da aprendizagem colaborativa; a jornalista Camila Moraes, da revista digital Acho Digno, de visibilidade da população negra, que no evento falou da nova edição realizada nos Estados Unidos, em Nova York, graças a um edital público; e Jamile Menezes, criadora do Portal Soteropreta, voltado exclusivamente para o roteiro afro-cultural de Salvador.

O exemplo de economia colaborativa ficou por conta da apresentação da inovadora Milla Costa, da Tacho & Dendê, que faz do seu espírito empreendedor uma força para outras mulheres negras que querem melhorar a condição financeira de suas famílias. Além de propor feiras colaborativas, aonde consegue espaços para a exposição de produtos e artesanatos, ela vende seus “pestiscos” para festas e eventos. Entre as novidades estão os mini abarás e o brigadendê, um brigadeiro à base de dendê, que ela diz ser a grande sensação da marca. Mas em se tratando de criatividade, a concorrência não para. “Além de gostoso, o brigadendê, tem mostrado que podemos inventar muito mais. Tenho uma amiga que se juntou ao nosso negócio que vende a pizzará e o pizzajé, são as pizzas com sabor de abará e de acarajé”, anunciou Milla.

Ao analisar os dois dias do Seminário de validação do Vale do Dendê, o Diretor de Inovação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), Lázaro Cunha, disse que esta iniciativa cria um novo paradigma, sob o ponto de vista da economia brasileira. “É uma ação bem contextualizada, com característica participativa e que leva em consideração a equidade racial e de gênero, atacando o problema estrutural da Bahia”, comentou.

Sobre as barreiras a serem superadas, Cunha diz que sendo um afroempreendedor, reconhece que o caminho da inovação se apresenta como a principal saída para o desenvolvimento econômico-social. “Como politica pública vejo duas ações necessárias neste momento: primeiro tornar público as fontes de apoio para os empreendedores, para que compreendam a importância da econômica criativa; e , segundo, investir na formação dos afroempreendedores, para desenvolvimento das habilidades e competências necessárias, para gerar o sistema de inovação e empreendedorismo”, concluiu.

O encerramento do evento foi coroado com uma visita técnica ao futuro prédio da reitoria da UNEB, na região portuária da Baía de Todos os Santos. Ali, poderá funcionar a FabLab do Vale do Dendê, consolidando a parceria ideal que une os espaços científico, de inovação e criatividade, tão importantes para que os objetivos desta iniciativa se concretizem,  transformando da cidade de Salvador em um ambiente atrativo de negócios no século 21.

*Veja aqui o texto original publicado no Portal Áfricas, escrito pela jornalista e radialista Claudia Alexandre.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top